Cripta Djan

19.02.2018 São Paulo

O ENTRE foi convidado para colaborar com 12 entrevistas para a publicação da exposição "Muros de Ar"  do Pavilhão do Brasil na  XVI Bienal de Arquitetura de Veneza em 2018, relizada pelos curadores Gabriel Kozlowski, Laura González Fierro, Marcelo Maia Rosa e Sol Camacho. As entrevistas publicadas em versão reduzida para a Bienal encontram-se na íntegra no site do ENTRE.

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Djan Ivson (São Paulo, 1984), ou Cripta Djan (como é conhecido nas ruas e no mundo das artes), é pixador, artista e ativista. Começou a pixar aos treze anos quando integrou a gangue Cripta, da qual faz parte até hoje. Participou de momentos emblemáticos para o pixo em São Paulo, como a invasão do Centro Universitário de Belas Artes e da 28ª Bienal Internacional de Artes de São Paulo (2008); do documentário PIXO dirigido por João Wainer (2009); de exposições como Né dans la rue, na fundação Cartier, Paris (2009); e da Bienal de Arte Contemporânea de Berlim (2012). Atualmente registra o pixo através de vídeos e se empenha em levar essa cultura para outros lugares do mundo. [Entrevista realizada por Marcelo Maia / Fotografia por Murilo Salazar]

 

_MUROS

Que fronteiras sociais e políticas a atividade do pixo busca expor e enfrentar? Qual é o primeiro embate quando você vai para a ação?

 

Cripta Djan - O primeiro embate é a desobediência civil - ter uma postura de enfrentamento com o Estado, não seguir as leis estabelecidas. Tem a questão da visibilidade também, dessa busca existencial, dessa promoção existencial. É tudo isso misturado, né? São vários fatores que levam um cara a pixar, são várias motivações. Tipo adrenalina, raiva, amor, alegria, medo. São muitas sensações.

Mas é esse enfrentamento político que eu acho que fica mais claro: o pixo reivindica o direito à cidade que é negado para à maioria das pessoas. Porque hoje ela é regida por regras que só atendem aos interesses do patrimônio privado. O espaço público está virando uma utopia, é totalmente privado. Então eu vejo o pixo como uma retomada da cidade por parte dos excluídos. São pessoas que, de uma forma simbólica, estão reivindicando seu uso público. Não é só a questão de pixar, é a questão da ocupação, de estar fazendo uso da cidade, de estar transitando nela, de estar ocupando simbolicamente lugares que, de repente, não foram planejados para a gente estar lá, como o Centro.

A gente sempre teve essa coisa de ocupar o Centro, desde os primeiros points. Apesar da maioria dos pixadores serem da periferia, esse lance de ocupar o Centro é uma espécie de retomada simbólica da cidade. Mesmo que ele não tenha sido projetado para a gente morar lá, de alguma forma a gente está ocupando aquele espaço, que realmente deveria ser um espaço aberto para interação das pessoas, e não para atender ao interesse do patrimônio privado. São Paulo é uma cidade que foi desenvolvida em prol da especulação imobiliária, então as pessoas sempre foram expulsas da região central, cada vez mais jogadas para as periferias, para as encostas. Então o Centro sempre foi um lugar mais elitizado.

 

_EVIDÊNCIAS

Quais são os indícios das separações geográficas que o pixo quer desobedecer? Quais são os critérios para a escolha do local a ser pixado?

 

Cripta Djan -  O pixo é uma força autônoma, ele tem vida própria, pode-se dizer. Então ele foi se desenvolvendo conforme a segregação espacial da cidade. A partir do momento que começaram a surgir muros e fronteiras para separar pessoas por classe, o pixo foi atuando justamente nessas lacunas. O pixo cria um diálogo, mesmo que seja através do conflito. Então, cada vez que surgir um muro, vai ter um pixo, entendeu? É uma consequência. E essas divisões das cidades estão cada vez mais claras, cada vez mais reforçadas: condomínios fechados, lugares totalmente monitorados para separar as pessoas por classe. Na cidade de São Paulo, eu acho que o pixo é a maior resposta para a questão da segregação espacial. Não só espacial, né? Todo tipo de segregação.

É um movimento que tem um modus operandi de atuar na cidade -  tradições, regras, códigos de conduta. É uma tática de guerrilha. O muro pixado indica várias coisas: de onde o cara veio, o tipo de letra que ele faz, o tipo de escolha, de preferência. Então, em relação à cidade, dentro da questão do pixo, a gente tem outra visão. É mais uma visão artística, mesmo que inconsciente. Não é uma coisa declarada, é bem instintiva. Quando você vai pixar, tem critério. A gente quer fazer o pixo bonito, quer seguir o padrão da arquitetura do lugar. A gente está sempre muito ligado a essa questão da arquitetura, sempre olhando a cidade em transformação. Cada muro que surge, cada prédio que levanta. Sempre avaliando as estruturas e por onde a gente consegue subir. Onde o nosso pixo vai ficar melhor. Não é só no ato, mas ao transitar a cidade. A gente pode estar trabalhando ou passeando, mas está sempre olhando o espaço. Uma vez que o cara virou pixador, já era, ele não vai mais deixar de olhar a cidade pensando no pixo dele naquele lugar. É uma coisa automática.

É uma forma e uma necessidade de expressão de uma classe de jovens que foi se desenvolvendo, como uma espécie de esporte radical da periferia. Tem essa questão do enfrentamento com o Estado. Você está enfrentando, você está desobedecendo as leis e, simbolicamente, sendo um criminoso. O crime é o preço que a gente paga pela nossa liberdade.

 

_EFEITOS COLATERAIS

Qual a diferença entre os desdobramentos de quando a prática do pixo é entendida como manifestação política e quando é entendida como expressão estética?

 

Cripta Djan -  Eu acho que o pixo carrega esses dois elementos. A questão política no ato: o modus operante de agir na cidade, a forma de ocupar, de se organizar. Já tem uma tradição e é um movimento de resistência acima de tudo. É uma cultura de resistência popular. O pixo é uma forma de autoeducação da periferia. E essa questão da expressão é muito ligada à identidade visual; criar uma identidade própria. Porque você nasce e já ganha o seu nome, você não tem o direito de escolher. No pixo você tem a oportunidade de recriar seu nome, de ser alguém diferente. Além disso, você tem uma identidade estética própria. Acho que é algo muito humano.

É um processo de vários anos para desenvolver. São vários anos ali, dedicados à rua. Não é só sair para pixar; você tem que escrever sob pressão, de ponta cabeça, pendurado. Você usa o corpo e muitas vezes coloca sua vida no limite. Eu estou há vinte e um anos pixando. Eu lembro os primeiros anos, como foram difíceis para amadurecer. Nos nossos termos, a gente fala que é "bafo" quem está começando. Eu fui "bafo" por uns dois anos até pegar a manha do bagulho, ter o domínio estético. Uma coisa é você fazer a letra em um papel, outra coisa é você sair pra rua e fazer aquilo na ação, envolvendo risco, adrenalina. Eu lembro quando era moleque que botei na minha cabeça que o que eu queria era ser conhecido no pixo. Com quatorze anos eu decidi isso e, dali em diante, acho que fiquei quase cinco anos sem parar de pixar para alcançar o meu objetivo.  Para ter uma visibilidade, para amadurecer a identidade estética, é uma parada que envolve muito amor e dedicação.

A questão política é fundamental. O pixo nasce da ausência do Estado na vida dessas pessoas da periferia. Quando a gente sai para pixar a cidade, tem essa questão do enfrentamento e do ódio, de estar ocupando um lugar que não foi construído para você. Então essa questão é um combustível também. A opressão, a forma como a gente é tratado: a gente é agredido de várias formas na periferia. A desigualdade é violenta. Sem igualdade não existe democracia, não tem como a cidade se tornar um corpo coletivo. Essas divisões vão aumentando a pressão. O cara está ali jogado, já mora em um lugar que é desfavorável geograficamente, já foi empurrado para as encostas, para as beiras dos rios, para os lugares alagados. Lugares que recebem menos investimento em infraestrutura, isso é claro. Os bairros de classe média alta e do Centro recebem os maiores investimentos e a periferia vai ficando cada vez mais esquecida. E tem pessoas fazendo riqueza com essa miséria. Como não ter revolta?

O pixo é a resposta de tudo isso. Por mais que tenha amor, tenha amizade, tenha adrenalina, o pixo é uma resistência política. Porque nós somos considerados criminosos perante a lei. Tem um enfrentamento, uma caça às bruxas. Pixadores já foram mortos, assassinados, pelo simples fato de estarem pixando. As pessoas estão tão cegas pelo capitalismo, tão apegadas à vida material, que elas hoje valorizam mais um carro, uma parede, do que uma vida. Os valores estão invertidos.

Acho que o fator econômico atrai muitos jovens para o pixo, pois nele a sua condição de classe não importa. É um dos poucos movimentos sociais em que o capital não tem importância. No pixo você constrói a sua história através da transgressão, da ousadia, da criatividade. Acho que é uma coisa muito instintiva, ninguém inventou o pixo. Ele foi se moldando desse jeito, conforme a questão de classes, a partir desse abandono do Estado nas periferias. O pixo é até uma forma de autoeducação. Muitos caras ali aprendem a ler através do pixo. A escola não teve condições de educar e o cara ainda consegue ler alguma coisa através do pixo, entendeu?

 

_EXPERIÊNCIA DISCIPLINAR

Pensando no aspecto da criptografia – do pixo ser incompreensível para não-pixadores – que tipo de diálogo o pixador quer estabelecer com os outros habitantes da cidade?

 

Cripta Djan - Na real é um diálogo interno. É uma linguagem sofisticada que foi se desenvolvendo com os anos e foi ficando cada vez mais cifrada por conta dessa questão da disputa de criatividade. A questão da originalidade é muito forte, você tem que ter o seu estilo próprio, plágio não pega bem. O cara tem que ter uma identidade única.

Parece ser uma conversa fechada, mas se qualquer pessoa se debruçar nela com o interesse de aprender, vai aprender. É como você chegar na China e não saber ler mandarim. Você vai aprender aquilo ali. É uma linguagem, então requer um estudo. Hoje, muitas pessoas que são simpatizantes do pixo já conseguem ler alguma coisa, até por desenvolver esse olhar. Até nós, pixadores, estamos sempre aprendendo. Às vezes surge um pixo novo e, enquanto a gente não conhecer o cara ou alguém que é conhecido dele para falar o que aquilo significa, a gente não consegue decifrar, porque é muito particular. É muito louco, cada pixador tem um mundo estético próprio. O cara cria o que ele quiser. Se ele falar que aquilo é um "R" ou um "L" a gente tem que aceitar e tentar entender.

O legal do pixo é essa questão da multiplicidade, de você estar sempre aberto para interpretar. O pixo trabalha essa questão muito humana: apesar de vivermos em coletividade, temos uma individualidade que precisamos aceitar. Por mais que você julgue. Hoje eu não tenho esse preconceito, vejo um pixo feio como estilo. É o estilo do cara, se ele mudar fica até zoado. Se ele fizer uma letra bonitinha já não é ele, tá ligado?

 

_COMPORTAMENTO E MICRIPOLÍTICA

Quais experiências de transposição de fronteiras você acredita haver nos casos dos ataques aos espaços da arte - como foi o exemplo do Centro Universitário de Belas Artes e a 28ª Bienal Internacional de Artes de São Paulo?

 

Cripta Djan -  Essa transição, com as invasões no campo da arte, aconteceu de uma forma muito instintiva e meio predestinada. Um dos nossos amigos pixador - o Rafael Augustaitiz ou Rafael Pixobomb, que faz parte do grupo que lidero “Os Mais Fortes”- foi estudar na Belas Artes. Ele absorveu conhecimento político, filosófico, artístico e estava enxergando em que posição o pixo estava naquele campo, o que dava para a gente fazer, o que faltava acontecer. Ninguém sabia que ele estava tendo essa visão, a galera achou que ele estava ficando meio birutão. Fui o primeiro cara que ele conseguiu abrir a mente e foi difícil, precisei da ajuda de outras pessoas de fora para falar “Escuta o que o seu mano está falando, que vocês vão levar o pixo para outro caminho, vocês vão abrir outras discussões”. Eu nem sabia o que era conceito de arte, eu nem sabia o que era Bienal. Ele traduziu para nós.

Tudo começou com a ideia de fazer do seu TCC uma coisa radical. A visão do Rafa foi a seguinte: se a gente já tinha pixado tudo - prédio, escalada, janela, igreja, delegacia, fórum, tudo - por que não pixar em uma apresentação de TCC onde a tese era sobre o pixo? A ideia do Rafael era que a gente pixasse de fato esses lugares: o meio acadêmico; o espaço de comercialização que era a Choque Cultural; o espaço de “glória” que era a Bienal. Desde o começo falei “Rafael, você vai ser expulso da faculdade e o que você vai falar para a sua mãe?”, e ele “Foda-se, é pelo pixo”. Foi muito louco a gente convidar a galera no point e explicar o que era a intervenção. Fizemos, ele foi expulso e reprovado, deu uma puta repercussão na mídia, acho que foi quando a gente mais saiu no jornal.

Então aconteceu um debate na MTV, onde o curador da Choque Cultural questionou a postura da Belas Artes em expulsar o Rafael, e chamando a responsabilidade para a Choque Cultural, falou que não tinha preconceito com nenhum tipo de expressão urbana. Daí nasceu a ideia de fazer a intervenção na Choque Cultural. O Rafael falou “Já que os caras se intitulam os representantes da rua, vamos passar lá e fazer uma exposição real do pixo”. A galera passou lá e pixou tudo que nem um furacão. Pixou quadro, teto, revista. Aquilo foi muito louco, foi uma quebra de paradigma. Não que vá fazer isso sempre, mas acho que foi um momento importante de romper, de fazer coisa nova. Aí a galeria fechou e deu queixa de crime, tá ligado? Então máscaras foram caindo.

Sobre a invasão da Bienal, a própria imprensa começou a dar a Bienal para a gente. Um dia o Rafael chegou e falou que a gente estava convidado para a Bienal. Ele viu o curador falando que a proposta curatorial estava aberta para intervenções urbanas, que teria um espaço. O tema da Bienal era "Em Vivo Contato". O Rafael, sempre idealista, falou “Djan, nós estamos convidados”, e eu “Beleza mano, convidados?”. Ele sabia que era roubada, que teria fuga, teria polícia. Na Belas Artes ele achou que não ia ter repressão e teve - ele foi preso.  Além de expulso e reprovado, foi preso e respondeu criminalmente. Na Bienal foi a mesma coisa. Só que vazou a nossa chamada do point, aí os curadores fizeram uma coletiva de imprensa ameaçando a gente, o que deu uma melada na ação. Aquele andar ia ficar todo ocupado, ia muito mais gente. Esses ataques criaram uma onda dentro do pixo, foi um momento em que a gente deixou a disputa interna de lado e foi defender o pixo de forma coletiva. Esse foi um momento pioneiro no pixo por essa questão também. Mesmo assim a gente fez a ação. E teve repressão a todo momento, foi uma loucura. Nem sei como é que a gente teve toda aquela disposição. Os caras estavam preparados para o confronto, quando começou o primeiro pixo já começou pancadaria com segurança e foi luta do começo ao fim.

Foi muito louco porque a gente pixou campos que a gente nunca imaginou que pixaria. Foi uma mágica diferente, entendeu? Eu já era consagrado na rua, fui pioneiro na modalidade de escalada vertical, janela, bomba em prédio, de ponta cabeça, nos vídeos. Participei de várias revoluções no pixo na minha época. Esses ataques foram um bagulho muito diferente. Foi um momento simbólico. Teve a prisão da Carol (Caroline Pivetta da Mota ou Carol Sustos). Porra, a menina ficou presa por dois meses por ter pixado. Na época o banqueiro Daniel Dantas tinha roubado milhões e tinha saído em cinco dias. Aquilo expôs a questão de classe no país de uma forma muito clara: se pixar uma parede e for pobre vai preso por meses, mas se roubar milhões sendo rico fica cinco dias.

Depois a gente foi procurado pelo ministro da cultura Juca Ferreira que quis saber qual era a nossa intenção e eu disse: “A gente só acha que o pixo faz parte da cultura brasileira. É um movimento de resistência e é cultura popular brasileira". Acho que a gente quis dar o grito dentro desse campo e falar: “Olha, a gente existe”. Era um momento que tinha muitos artistas se apropriando do pixo ou falando dele. Foi quando a gente começou a ter voz própria, produzir os nossos vídeos, nossas fotos, participar de Bienais e ocupar lugares fora da rua como pixadores. Sempre pensando conceitualmente para não ser cooptado. Mesmo que o pixo tenha reconhecimento de Bienais, ele continua sendo transgressivo, ele continua sendo crime e continua sendo odiado. A gente não quer que isso mude. Quando a gente buscou esse diálogo no campo das artes, não foi nem por uma questão de aceitação, de buscar ali um pedestal, foi para não ter nossa existência ignorada.

 

_POTENCIAL TRANSFORMADOR

Ao tentar revelar a exclusão vivida por um grupo da sociedade, como você acredita que o pixo pode contribuir para mudar a desigualdade entre classes sociais e ativar um espaço de luta comum?

 

Cripta Djan - Eu acho que o pixador ter um reconhecimento em outros campos, além da rua, já é uma ascensão de classe. O pixador está sendo ouvido no meio acadêmico, ele está sendo tese de pesquisas, de TCCs, mestrados, doutorados; começa a se introduzir no cinema; no campo da arte. Acho que o pixo pode ser cada vez mais direcionado como um instrumento de revolução política. O pixador pode usar o enfrentamento para pressionar o Estado. Acima de tudo é uma guerrilha simbólica e pacífica. O pixo pode agredir simbólica e esteticamente, mas é tinta na parede. Acho muito democrático reivindicar uma questão política com tinta. Por mais que as pessoas digam que o pixo é autoritário, ele é inofensivo, é um grito mudo. É uma intervenção estética, no máximo. Falam que é um vandalismo. Eu diria que é um vandalismo simbólico, não físico. O lugar pixado continua apto a cumprir sua função, o que muda é o significado. Você está ali mexendo com significantes, significados, signos. Entra em questão a luta de dominantes e dominados.

Você não está aceitando só a estética das classes altas, você está impondo ali o seu padrão estético na cidade. Quando vão construir um prédio ou um shopping, a população não é consultada, entendeu? Os caras vão lá e constroem um muro naquele caminho, e eu não posso pixar nele? O muro é uma intervenção física permanente, o pixo é uma intervenção efêmera, estética. O muro sim é autoritário, o muro que é agressivo, impositivo. As pessoas acusam o pixo de ser agressivo, mas agressivo, na realidade, é o muro. Quem está violando os horizontes não são os pixadores, são os prédios. O pixo não traz nenhum risco para a saúde pública, não oferece doença nenhuma, diferente de entulho, diferente de você sujar um rio. E nós que somos acusados de cometer crime ambiental, é hilário. A gente só pixa o meio ambiente construído pelo homem - a cidade. A gente não pixa a árvore, não é do nosso interesse pixar o meio ambiente. A gente não vai para a floresta para pixar: "Falou, galera, vamos lá pra Serra da Cantareira pixar tudo.”

A questão geográfica sempre foi muito importante no pixo. As zonas, para nós, são como instituições. Você ser na Zona Sul, da Zona Leste, da Zona Oeste. Você pode fazer parte de um coletivo, mas a zona que você mora é a sua região. Quando a gente se conhece, uma das primeiras perguntas, além do pixo e do que você pixa, é: de que zona você é? O pixo foi crescendo na capital e foi se espalhando para as regiões metropolitanas. Lembro que quando eu comecei a pixar em 1996, Barueri era um município onde a pixação estava nascendo. Já Carapicuíba e Osasco eram municípios onde o pixo tinha mais tradição. Depois de um tempo até em Itapevi o pixo cresceu e foi se proliferando pela cidade. Isso começou a acontecer em todas as zonas e nos municípios mais afastados.

O que tenho notado é que o pixo está crescendo com força, como uma bola de neve, se espalhando nas periferias e adentrando nos interiores no Brasil todo. São Paulo e Rio têm uma força gigante na pixação, influenciaram as cenas do Brasil inteiro. A cena do Nordeste também está crescendo muito e agora o pixo reto chegou lá. Antigamente era só xarpi, porque o estilo do Rio influenciou aquela região. Já no Sul e Sudeste, o pixo reto sempre foi referência - cidades como Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte. Belo Horizonte, por exemplo, foi uma cidade que sofreu uma influência dupla: nos anos 1990 eles eram influenciados pelo estilo xarpi, na década de 2000 eles foram influenciados pelo pixo reto e isso desenvolveu o estilo mineiro. Eles têm dois tipos de letra: com o spray eles pixam mais parecido com o estilo carioca, e de rolinho eles fazem o "paulistinha". Puta, está ficando lindo o Brasil. Teve lugares que eu fui em Vitória em 2011, praticamente desbravei a cidade, pixei lugares que não tinham nada. Voltei lá agora em 2015 e a cena está gigante, tanto do pixo reto, quanto do xarpi. Eu nunca imaginei encontrar pixação em Mato Grosso do Sul e você encontra uma cena do pixo reto. Às vezes pode ser uma micro-cena, mas toda cidade tem ali uma cena do pixo.

São Paulo já não tem mais jeito, as autoridades aqui podem levantar as mãos porque é uma guerra perdida. Pode vir, Doria, Pitta, quem for. Vários prefeitos declararam guerra ao pixo e, na real, a repressão é só combustível. Quanto mais reprimir, mais visibilidade, porque o que projeta a gente é a recusa. Nós não queremos aparecer lá na Fátima Bernardes sendo elogiados, tá ligado? Nós queremos ser xingados pelo Datena. É isso que vai satisfazer o nosso ego. Falar: “Porra, é isso que a gente quer. Aí sim a gente atingiu o inimigo”.

Eu sou pixador há vinte e um anos, é uma parada que eu defendo com a minha vida. Então, onde estão dando voz para o movimento, eu estou sempre lá. Porque sou um ativista do pixo. Essa é a minha contribuição para um movimento que mudou a minha vida, que deu todo sentido a pessoa que eu sou hoje, nas minhas atitudes, nas minhas escolhas, nas minhas amizades, na minha formação política. Então, tudo o que eu puder fazer por esse movimento, eu vou estar ali dando a cara para bater em debate.